segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nobel de Economia elogia Brasil.

Em entrevista ao JB, o prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, alerta para o desastre social que o colapso financeiro está causando nos EUA. No Brasil, porém, o cenário percebido pelo economista é diferente. As medidas de estímulo ao consumo de automóveis e bens duráveis, bem como o pacote para a construção civil, foram um grande acerto;Prêmio Nobel acusa bancos de forçar a manutenção de sistema decadente. Jornal do Brasil.
RIO DE JANEIRO - Depois de profetizar durante anos sobre a ineficiência dos mercados na condução de economias inteiras, Joseph Stiglitz acusa bancos americanos da tentativa de manter o mesmo sistema decadente que provocou a crise mundial. Vencedor do Nobel de Economia em 2001, o professor da Universidade de Columbia alerta para o desastre social que o colapso financeiro está causando nos Estados Unidos. O olhar humano apoiado em teses científicas leva-o a tecer expectativas sombrias: recuperação americana nem pensar neste momento em que o desemprego não dá trégua.
No Brasil, porém, o cenário percebido pelo renomado economista é bem diferente. As medidas de estímulo ao consumo de automóveis e bens duráveis, bem como o pacote para a construção civil foram acertadas, disse em entrevista ao Jornal do Brasil. A reação do emprego formal pode ser, segundo ele, sinal de que o governo acertou ao induzir aumento da demanda. O economista norte-americano veio ao Rio para o Congresso Internacional da Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa). Em palestra na PUC-Rio, após dar entrevista ao JB, Stiglitz também usou e abusou de artilharia pesada.
– Os banqueiros saíram com milhões de dólares nos bônus dando a impressão de que a economia estava boa, mas era uma fantasia, não havia lucros. (...). Perdemos o senso de equilíbrio entre o mercado e o Estado, entre o indivíduo e a comunidade. Essa é uma boa oportunidade de criar um novo sistema financeiro, que faça o que um sistema financeiro deve fazer, que dê empregos decentes para todos, uma nova sociedade em que cada indivíduo possa alcançar suas aspirações. O único perigo é que essa oportunidade não seja aproveitada. Stglitz chefiou o conselho de assessores do presidente Clinton, foi vice-presidente para Políticas de Desenvolvimento do Banco Mundial, onde se tornou também seu economista chefe. Formou-se no Amherst College em 1964, em Massachusetts, e no Massachusetts Institute of Technology.
O senhor disse certa vez que a globalização, da maneira como é conduzida, parece um pacto com o diabo, no qual ricos enriquecem e pobres ficam cada vez mais pobres. A crise piora esta situação? Em tempos de crise, desigualdades crescem. Isso vai depender em parte de políticas sociais. Mas o que normalmente acontece em períodos de crise é que quando o desemprego sobe, sempre são os mais pobres que sofrem os mais elevados índices de desemprego. Médicos, professores universitários não perdem seus empregos mas operários de fábricas sim. Mesmo os que mantêm o emprego perdem porque os salários podem ser reduzidos na crise. E, tipicamente depois da recessão, o rendimento que recuou rapidamente não costuma retornar ao patamar anterior à recessão.
Por quê? Economistas não conseguem explicar o fato. Em 2001, na última crise, americanos viram seus ganhos reduzidos e em 2007 não haviam recuperado ainda todas as perdas. Mesmo tendo sido uma crise pequena, em cinco anos não houve uma recuperação total das perdas. Agora temos uma outra recessão e a situação parece que ficará pior. E esta crise, especificamente nos Estados Unidos, e diferentemente do Brasil, é particularmente ruim porque os bancos arruinaram pessoas pobres. Elas estão perdendo suas casas, estão perdendo poupanças da vida inteira. Esta crise é um verdadeiro desastre social. Ao mesmo tempo, os banqueiros, que causaram a crise, mantiveram seus bônus.
Por que no Brasil é diferente? Uma razão para a crise ser diferente no Brasil é que os bancos se comportaram de maneira melhor, foram regulados de maneira correta. Mas as exportações foram muito afetadas no Brasil ... O Brasil tem sido afetado como todos os outros. As exportações para os Estados Unidos e Europa, tem sofrido cortes, algumas mais que outras, dependendo do produto. O fato de o Brasil exportar alimentos também é positivo porque as pessoas vão continuar comendo mesmo diante de uma recessão.
Como o senhor avalia as medidas do governo brasileiro de incentivar a demanda por bens duráveis e a construção civil? É um bom momento para gerar emprego e ainda contribuir para que pessoas tenham suas casas. E o fato de o emprego ter reagido é um sinal que a estratégia de estimular a demanda de alguns bens duráveis e a construção civil pode estar funcionando. (...) O Brasil é bastante inovador em programas sociais, muitos estão imitando, porque são eficientes.
Todos agora acreditam em Keynes? A tendência é que os governos sejam mais intervencionistas? Agora todos reconhecem que os mercados não se ajustam por si só. Reconhecem que os mercados não cumpriram o esperado, não criaram empregos nem estabilizaram a economia como estava suposto. Muito dinheiro foi gasto de maneira errada. Nenhum governo gastou na mesma magnitude como bancos privados gastaram na América. Pode-se dizer que governos foram ineficientes? Sim, mas os agentes privados foram mais ineficientes ainda. A maioria também não criou inovações tecnológicas. Apesar desses fatos, há algumas limitações para mudar. A nova visão sobre economia deverá ser uma mistura de conceitos. Algo que muito me preocupa é que os bancos têm muito dinheiro e estão usando seu dinheiro para comprar influência política para terem certeza de que as coisas não mudarão muito. Gostaram do que fizeram antes porque fizeram muito dinheiro e querem continuar. E esta será a grande batalha: ou permitem que voltem como eram ou mudamos isso.
A economia americana está se recuperando? Não. O que as pessoas estão começando a ver é um declínio da taxa de declínio. Um dos mais importantes indicadores para se medir a crise, o desemprego, não tem perspectiva de retornar 4% ou 5% nos próximos dois anos.
A ONU divulgou que o número de pessoas com fome no planeta deve alcançar um bilhão. O que pode ser feito? Este tema não tem relação com a capacidade de produção de alimentos. O problema está sim, distribuição dos alimentos. Enquanto nos Estados Unidos enfrenta-se doença por excesso de alimentos, tem gente que não tem o que comer. Tem alguma coisa errada com a maneira como o sistema econômico global funciona. Cololaboração da Coluna do Honorato.

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