quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Contra oligopólio midiático, saída é fortalecer mídias públicas e alternativas

Jonas Valente, em Belém - Observatório do Direito à Comunicação
Apesar de o tema do Fórum Social Mundial ter sido a Amazônia e a luta contra a destruição do meio ambiente, a caracterização da crise financeira mundial e as alternativas para sua superação rumo a um novo modelo de desenvolvimento apareceram como a preocupação mais recorrente nos debates do evento. Nas atividades com temática ligada à comunicação, não foi diferente. Especialistas, ativistas e lideranças de movimentos sociais discutiram o papel da mídia na crise e qual comunicação deve ser reivindicada para construir um modelo de desenvolvimento popular e democrático.

No debate "Comunicação e Desenvolvimento - Uma política de comunicação desde os povos", realizado no dia 31, Marcos Arruda, da rede Jubileu Sul, destacou a importância que os meios de comunicação vêm tendo para manter uma ilusão legitimadora da ordem econômica que agora evidencia sua insustentabilidade. "O paradigma de desenvolvimento que temos é mentiroso e é ligado também a um conceito falso de progresso, que trata desenvolvimento e progresso como crescimento econômico ilimitado”, afirmou Arruda. “Todo dia está no jornal as notícias sobre o crescimento. O problema não é crescer, mas deve ser buscar crescer e manter distribuindo.”
Na mesma mesa, Gilberto Maringoni, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (IPEA), lembrou que este comportamento se intensificou pelo fato da mídia ter se integrado, nas últimas duas décadas, ao capital financeiro. “Cada vez mais a mídia é assumida por grandes financistas internacionais. Um exemplo é o jornal O Estado de S. Paulo, que pertence a um consórcio de bancos liderado pelo Itaú”, assinalou.
Em outro debate, "A Comunicação dos trabalhadores na disputa ideológica", promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) no dia 30, o sociólogo Emir Sader alertou para a importância de entender a força desta ação dos conglomerados e como este aparato de publicidade, entretenimento e jornalismo agora opera para sustentar a opção pela manutenção do status quo mesmo que reformulado em razão da crise. “O sistema de valores que compõe o modo de vida americano é hegemônico. Embora os Estados Unidos estejam decadentes, o seu modo de vida continua se estabelecendo", afirmou.
A mídia pública como alternativa
Nos dois debates, os participantes apontaram a comunicação pública como a principal alternativa das forças contra-hegemônicas para pautar de fato junto à população um novo modelo de desenvolvimento. "Não há como fazer disputa ideológica sem fortalecer o campo público da comunicação: as [mídias] estatais, comunitárias, públicas e legislativas", defendeu Beto Almeida, coordenador da Telesur no Brasil.
Para Gilberto Maringoni, embora os meios alternativos, comunitários e livres devam também ser um campo a ser ampliado como expressão das vozes populares, é preciso superar uma possível dispersão em instrumentos robustos e de forte alcance no âmbito do Estado. “Como nós, que tentamos fazer mídia contra-hegemônica, podemos combater isso? Temos que fazer veículos alternativos, tudo isso, mas se a gente depender disso, não dá nem para sair. Só dá para contar com um ente para fazer frente a isso: é o Estado”, enfatizou. “Toda a nossa força deve ser pressionar o Estado para constituir meios de comunicação, transmitir estes meios. Ele só pode fazer isso se for democrático."
Maringoni destacou que esta luta passa por disputar, hoje, os recursos movimentados pelo Estado para a mídia, direcionados sobretudo aos grandes grupos comerciais. "Hoje, 60% da verba publicitária do governo vai para a Rede Globo, sendo que ela tem 52% de audiência", relatou.
Para Emir Sader, este contraponto necessário pela TV pública não deve se limitar ao jornalismo, abarcando também os conteúdos tradicionais televisivos: a dramaturgia, as artes e os esportes. "Não tem que ter vergonha: tem que ter muito recurso, tem que fazer novela. Nós não queremos disputar o marketing, mas o esporte, o noticiário, a música. A música é um elemento espiritual nas pessoas. Tem que ter apenas a música de combate, mas contemplar a dimensão de lazer, de espiritualidade das pessoas. O trabalhador precisa de consciência e lazer. Um lazer construtivo, de solidariedade", defendeu.
Organizar a comunicação popular
Igor Felippe, da área de comunicação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), no debate "Comunicação e Desenvolvimento", avaliou que a esquerda hoje sofre por ter apostado em tentar dialogar com a população por meio da mídia comercial, ao invés de criar seu próprio aparato de comunicação. "Como a esquerda não tem um jornal diário? Isso é uma vergonha”, questionou.
A saída, continuou está na construção de meios próprios dos movimentos sociais e organizações populares, como experiências que venham "de baixo para cima". "Nós não vamos conseguir dialogar com a sociedade por meio destes meios de comunicação. Temos que criar rádios comunitárias, jornais, blogs, etc. Isso vai nos ensinar a fazer comunicação.”
Entretanto, Felippe argumentou que a comunicação só será um instrumento de fato de propagação de um novo modelo se ela for feita no bojo de intensa luta social por um programa democrático e popular, promovida por um campo de esquerda mais articulado. "Hoje a esquerda está fragmentada. Temos que construir um programa unitário com propostas para este país. A única forma de romper esta conjuntura é a partir da luta social, não existe outra forma. É a luta social, são ações, marchas, protestos, fóruns, campanhas que vão conseguir furar este bloqueio. Fizemos o plebiscito da Vale do Rio Doce em 2007 e conversamos com mais de cinco milhões de pessoas, fizemos trabalho de base", disse.
Conclusões afins, ações nem tanto
Apesar dos balanços convergentes, as respostas a este quadro e à necessidade de construir um aparato de comunicação contra-hegemônico mantêm-se pouco articuladas. No último dia do Fórum Social Mundial (FSM), o Objetivo 4 da lista dos eixos organizativos do processo, relativo à democratização da comunicação, foi o único que não contou com uma assembléia para pensar ações conjuntas. Quanto aos meios alternativos, as articulações ainda esbarram na fragmentação.
Um sopro de ânimo foi a realização de mais um evento do Fórum de Mídia Livre no FSM 2009. Porém, o encontro não conseguiu avançar significativamente na organização das iniciativas alternativas para uma agenda comum, que paute um outro modelo de desenvolvimento. O risco disso é que, em um momento crítico e de oportunidades como a atual crise econômica mundial, a esquerda perca a batalha e não consiga pautar uma alternativa de fato.

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